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Nós bo-bos

20 junho, 2014

O texto abaixo foi escrito para outro blog que alimento, mas pode ser de interesse também dos leitores deste. Espero que goste.

Existe um conceito na França que é o de bourgeois bohème, com tradução para burguesia bohêmia. Esse conceito, na verdade, é múltiplo, pois tem diversas interpretações.

Uma de suas interpretações pode ser comparada ao da « esquerda festiva » que muitas vezes é utilizado para designar aquela pessoa rica, bem de vida, mas que adora zombar dos também ricos, chamando-os de alienados, politicamente analfabetos e imputar-lhes a obrigação de distribuição de renda, quando ela mesma, está lá viajando de avião todo feriado. É quase que o sujo falando do mal-lavado. Este tipo de bourgeois só gosta de filme iraniano  e se recusa a falar inglês. Adora comentar que Jô Soares só fala de sexo, mas alucina com a carreira do Woody Allen.

Essa interpretação engloba a elite que fala mal de si mesma julgando-se melhor que os demais da elite porque ela não se vê como elite, mas como trabalhadora e merecedora da grana que tem para fazer o que quiser. É o tipo de pessoa que sente que é mais boazinha que as outras porque se recusa a usar salto alto.

Daí que a gente possa concluir que o mundo começou a se desentender feio quando um grupo de pessoas passou a se considerar mais trabalhador que outro. Como se não fossem todos os trabalhos importantes. Inclusive, se apropriaram do adjetivo « trabalhador » para designar apenas um tipo de trabalho. O trabalho intelectual deixou de ser um trabalho de trabalhador, mesmo que seja o trabalho de muitos bo-bos. E mesmo que seja também um trabalho muito difícil.

Aí a guerra continuou quando a pessoa que oferecia o emprego (ou o trabalho !) passou a ser considerada a inimiga e, o pior, muitas vezes, assumiu este papel e se tornou realmente a vilã da história. « Não quer trabalhar 12 horas por dia ? Tem uma fila de gente querendo ! », que cliché.  Cara, você tinha a chance de ser um exemplo de líder e escolheu ser apenas um carrasco…

O Bourgeois Bohème, ou bo-bo, como é conhecido na pátria dos bo-bos (a França) é um conceito em transformação. Para esta primeira interpretação, o bo-bo nunca viveu o excesso de trabalho. Ele saiu de casa aos 20 anos, mas só precisou trabalhar aos 25. Quando machucou o joelho, ele teve duas semanas de licença. Quando ficou cansado, ele viajou o mundo com o dinheiro do seguro-desemprego. Quando lhe dá vontade, ele gasta três ou quatro cifras de euros com vinhos e também não poupa com drogas ilegais. Ele se julga esperto por ser diferente, mas não suporta idéias diversas às suas. O bo-bo festivo adora jogar lagostas vivas na água fervendo enquanto reclama das crueldades do capitalismo. Pelo sabor da comida, vale tudo, o prazer de comer é o que importa para ele.

Do outro lado da mesma palavra, existe a nova categoria de bo-bos. E é um bo-bo mais legal! Ele não deixa de ser um utópico, mas é aquela criatura que tenta encontrar prazer no trabalho. É o pequeno empresário que tenta negociar com honestidade porque adoraria que todo mundo seguisse seu exemplo. É o cara que gosta de unir grupos diferentes porque seria bom que todo mundo fosse amigo. É a musicista que não come proteína animal, o arquiteto que faz tudo de barro. É o advogado que se desloca de bicicleta e o ator que financia seus próprios filmes sobre hortas urbanas e escaladas com cabras. Esse grupo de bo-bos ainda não conseguiu ganhar tanto dinheiro quanto os primeiros bo-bos, mas é um grupo que tem na herança uma « margem para tentar e errar » e vem ganhando adeptos no mundo todo. O bo-bo utópico não é consumista e prefere uma casa pequena e uma cidade linda ao condomínio de luxo do bo-bo festivo.

Mas o bourgeois bohème do primeiro exemplo não é exceção. Ele vive em cada um de nós. Cada um de nós que tem um teto para morar e um facebook para compartilhar o nosso lado politicamente correto. Cada um de nós que tem um blog e uma birra do ex-patrão que publicou um livro com seus textos e não te pagou. Cada um de nós que não está verdadeiramente trabalhando para ajudar ninguém, que faz ativismo de rede social e se considera revolucionário. Cada um de nós que espera que a solução venha dos outros enquanto a gente aumenta nossas horas de repouso para não ter rugas tão cedo. Que xinga presidente e xinga candidato com a mesma boca que toma coca-cola.

Esse nosso eu-bo-bo, a gente bem que podia tentar mudar !

Ser bo-bo é uma coisa nova no mundo. E ainda um ser em observação. Mas ser bobo é um conceito consolidado há tempos. E, por incrível que pareça, é também uma escolha pessoal. Boa sorte pra gente!

 

“Como são admiráveis as pessoas não conhecemos bem”- Millôr Fernandes

O chocolate Surpresa e o direito à greve

3 junho, 2014

Outro dia, o fotógrafo Luiz Cláudio Marigo sentiu fortes dores no peito num ônibus da zona sul do Rio de Janeiro. O ônibus passava em frente o Instituto Nacional de Cardiologia (INC) e segundo relato do motorista, alguns passageiros desceram com o fotógrafo para pedir ajuda. O instituto estava em greve e informou que não possuía serviço de emergência. Uma ambulância só chegou quando já era tarde demais e o fotógrafo faleceu.

Luiz Cláudio fez parte da vida de quase todos nós. Ele ficou conhecido como o fotógrafo das fotos que vinham nos chocolates Surpresa. Esse chocolate era queridinho da minha infância. Ele que surgiu na França e veio para o Brasil na década de 80.

Além desse chocolate, outras idéias também surgiram na França e vieram para o Brasil.  A greve é uma delas, cuja palavra vem da Place de Grève em Paris. Ao contrário do chocolate Surpresa, a greve é um direito de todos, garantida pela constituição do Brasil (art 9). É uma das poucas formas encontradas até hoje de o funcionário fazer com que sintam que seu trabalho é importante e que suas condições de trabalho devem ser melhoradas.

Embora seja um direito de todos, a greve é hoje sentida quase que somente nas estatais, uma vez que na esfera privada, ela é tão mal vista que significaria o fim da vida profissional do grevista.

Existe uma discussão histórica que logo estigma os favoráveis à ideia de greve de esquerdistas e os desfavoráveis de direitistas. Talvez, em razão deste estigma, a discussão fique sempre muito passional e pouco plausível.

Quero dizer, inicialmente, que sou favorável à greve. Mas que acho que ela é mal conduzida na maioria das vezes e é vista como única opção quando poderiam ser encontradas alternativas. Isso não me faz nem esquerdista e nem direitista (embora você, leitor, já tenha tomado as suas conclusões). Um médico que não tem nenhuma condição de atender ninguém no centro hospitalar em que trabalha tem que fazer greve. Ele não pode se expor a ficar num centro e assumir toda a culpa pela morte ou piora de pacientes se ele não tem condição alguma de fazer o seu trabalho. E não precisamos ir muito longe. Você, advogado, que está atendendo 50 clientes ao mesmo tempo, que não tem tempo pra respirar, que não consegue ler o processo direito de tanto acúmulo de trabalho que o seu chefe está te dando, você também deveria, depois de tentar outros métodos (como conversas com chefe), cogitar uma greve antes que perca inúmeros prazos e a culpa recaia sobre a sua capacidade de trabalho, ou a falta dela. Simplesmente, o seu trabalho não deveria ser feito só por você, mas por três ou quatro pessoas. Mas, sim, sabemos que você não vai fazer greve. Você vai levar trabalho pra casa, esquecer de fins de semana e festas de família, você vai diminuir suas horas de sono e  até os minutos do banho. Mais pra frente, você vai bater no peito e dizer “bando de grevistas ignorantes”, enquanto isso as suas peças estão rodando o judiciário, com aqueles mesmos grevistas rindo dos seus control Vs e dos erros de concordância que escapuliram na pressa para cumprir todos os prazos. Acredite, eu te entendo!

Mas não, o mundo não precisa de tantas greves, e aí vai o meu clichê do dia: O mundo precisa de mais atenção ao próximo. Você precisava mesmo achar a foto de um macaco no seu chocolate? Não, você não precisava. Mas você bem que gostava de encontrar! E colecionava também as fotos de felinos, que te faziam sentir um pouco selvagem na selva de pedra, não?! Nem tudo que é feito precisa ser feito, mas pode ser feito só para a vida ficar mais gostosa. As surpresas fazem bem!

E, não, não é só no Brasil que a gente sofre com greves.  Na França, onde moro atualmente, quando adoeci e fiquei quatro dias sem conseguir comer, também não consegui atendimento médico pelo mesmo motivo: Greve. Além disso, quando encontrei um funcionário na faculdade que poderia me ajudar, ele disse que já estava indo embora e não poderia sequer me dar uma informação. Essa não era uma obrigação dele como funcionário, mas como ser humano que poderia dedicar cinco segundos da vida para me apontar a direção da enfermaria da faculdade.

Outras formas de reivindicação também podem ser cogitadas. Me lembro da menina de 13 anos que criou a página “Diário de Classe” na internet para denunciar o descaso com a escola dela. Depois disso, muitas melhorias aconteceram e ela conseguiu mobilizar muita gente para outros projetos. Flash mobs e intervenções também podem ser usados para atrair doadores de sangue, para denunciar problemas estruturais de órgãos e até da cidade. As fórmulas são muitas e algumas nem nunca foram nem tentadas. Uma colega me disse que em seu trabalho fizeram um manifesto de poesia para pedir mais tempo para trabalhar. Outra foi vestida de esquimó para fazer alterar o ar condicionado. A greve é só mais uma opção e, concordo, nem sempre é a melhor, depende de cada situação.

Então, voltando ao caso do fotógrafo que morreu por falta de atendimento, achei lamentável. Até porque não é nem o primeiro e infelizmente não será o último. Mas não sei dizer se foi por negligência dos profissionais que estavam nesse centro de cardiologia em greve. Se foi, sinceramente, com greve ou sem greve, acho muito triste. Não pelo fato de serem médicos mal remunerados (o que com certeza são), mas pelo fato de não mais se mobilizarem para ajudar alguém quando poderiam fazer algo com os conhecimentos que tem (veja bem, estou trabalhando na hipótese de que estariam disponíveis para uma possível ajuda) . Se este foi o caso, seria triste constatar que não há coração num instituto que se dedica ao estudo dele.

Porém, como pessoas que buscam o entendimento da justiça, também devemos considerar a hipótese de que talvez o instituto não tivesse médicos disponíveis. Talvez fosse até mesmo essa a razão da greve e não simplesmente “falta de dinheiro para viajar nas férias “. Essa situação dos profissionais da saúde não é de hoje e não é somente no Rio de Janeiro. Em Belo Horizonte, já participei de uma campanha junto ao sindicato dos médicos que chamamos de “Seu médico está passando mal”. O vencimento do médico era tão baixo que não compraria um ingresso para os jogos da Copa do Mundo na sua própria cidade.

Então, o que eles podem fazer? Pedir demissão e encontrar outro trabalho? Sim, muitos o fazem. Mas aí o Estado e o estado ficam sem médico e tem que importar médicos de outros países…

Vou parar por aqui minhas divagações sobre a prática da medicina. Não domino o assunto. E tenho certeza que tem muitas variáveis e muita briga política também no meio, o que faz apodrecer um pouco mais a história.

Em todo caso, assim como foi com o Chocolate Surpresa,  podemos nunca saber o que de fato aconteceu depois que o ônibus parou. Sabemos que um grande fotógrafo morreu na porta de um centro cardiológico. Sabemos que a greve é um direito. Sabemos que existe uma contradição quando o direito à vida se choca com o direito à greve, assim como uma discussão sobre a paralisação de serviços essenciais.

De qualquer forma, a cada pessoa que morre na porta de um hospital, estamos perdendo. A cada médico que tem que manter três jornadas para colocar comida no prato, estamos perdendo. A cada dia que seu chefe cruza o Atlântico pra postar fotos da Eurodisney no twitter enquanto você faz o trabalho de cinco, estamos perdendo. A cada desvio de verba, cada brinde canalha de Champagne, cada helicóptero de cocaína, estamos perdendo muito.

É o abuso que nos faz criar ódios, ora de esquerda, ora de direita. E essa amargura não resolve nada. Não faz mais esperto o tolo. Não recupera os doentes, não educa as crianças. Não adianta lutar amargo. Não deixa doce o chocolate. Aquele chocolate fininho, com as fotos da natureza. Aquelas fotos de bichos que diziam “Ei, estamos em extinção, por favor, ajude”.

Mais:

Site do Fotógrafo Luiz Cláudio Marigo – a foto que ilustra a postagem foi tirada do mesmo site.

O direito de greve e a responsabilidade face aos serviços essenciais no Brasil

Página Diário de Classe

 

UPDATE 05/junho/2014: Uma médica leitora me enviou a seguinte mensagem que penso valer a pena compartilhar: “Achei muito oportunas suas considerações, principalmente no que se refere a alternativas à greve. Particularmente, sou contra greves, acho que elas penalizam o lado mais fraco. Nunca fiz greve na minha vida, em respeito ao usuário ou paciente. E olha que quando fiz faculdade, nos seis anos de curso, tivemos mais de seis meses de greve, contando tudo. E no dia da minha formatura os professores estavam em greve e ninguém foi, nem o homenageado. Enfim, acho que temos mesmo de encontrar alternativas”.