O Control C, Control V na justiça

Já trabalhei do lado do advogado e do lado do julgador. Então, não queria, mas devo concordar que o judiciário está atolado de “copiar e colar”.

Do lado do advogado, as petições já estão todas prontas, com temas separados do tipo “auxílio isso, auxílio aquilo”, “perda do equilíbrio econômico-financeiro”, “ocorrência ou não ocorrência do dano”, “pedido disso, daquilo” etc.

Do lado do julgador estão prontas decisões do tipo  “Rejeita preliminar”, “Rejeita Embargos – ausente omissão”, “Defere prova testemunhal”, “Declina da competência” etc.

Isso, por um lado, é bom, porque acelera o trabalho e evita que a gente perca tempo com coisas que tendem a ser sempre iguais.

Por outro lado é arriscado. Arriscado porque muitas vezes passam erros terríveis já que os casos podem parecer sempre iguais, mas possuem suas nuances.

Também é péssimo porque cria um certo descaso com aquele que procura a tutela jurisdicional. Ele acha que o caso dele é único, mas para o advogado e para o julgador, é só mais um control C, control V.

Ainda propicia a conhecida “corrida de olhos” sobre o processo. No início do estágio, eu ficava impressionada como que, em um minuto, o advogado já entendia tudo de um caso de dois volumes de autos. Ora, ele entendia tudo porque era um control C control V danado. Via-se só uma parte ou outra que era diferente, o que também é perigoso para o lado do julgador, que, assim, dará só uma corridinha de olhos sobre as peças e poderá deixar despercebido um ponto importante, ou um documento relevante, que faria toda diferença na decisão.

Outra coisa chatíssima é a mania dos advogados de escreverem demais. Páginas e páginas com a mesma história, a mesma ladainha, o mesmo texto que ele já escreveu cinco anos atrás defendendo uma causa parecida. O processo fica longo, pesaroso e estimula uma má vontade no julgador.

Uma contestação, para ficar mais prática, poderia ser feita assim:

“Empresa X que contende no caso da menina que quer danos morais.

Doutor Juiz, faço das palavras daquele processo grandão ali, as minhas palavras. Considere que não estão presentes os requisitos, que somos legais e que a menina nem é nossa cliente. Olha essa foto dela no concorrente!

É um absurdo. Justiça seja feita!

Obrigado!

Advogado da Empresa X”

(brincadeira! Isso não é um modelo real – caso alguém tenha chegado até aqui procurando por um control C no Google!)

Agora, um dos pontos que acho mais prejudiciais desta prática da cópia está na estagnação da mente. Pois quando a gente se acostuma a só copiar e colar, aquele trabalho, que deveria ser mental, fica alienante assim como o de Charles Chaplin em Tempos Modernos. É perigoso estarmos alimentando advogados capazes apenas de um trabalho braçal de procurar o tema certo, adequar os nomes e imprimir uma petição pronta. Assim como podemos estar diante de Juízes que, em meio a uma decisão, não se apercebem de quantas outras soluções teriam ao alcance por falta de exercício da consciência.

Torna-se tudo maçante com a repetição ad infinitum do Copiar e Colar

Não, a gente não precisa jogar o control C fora. Ele pode ser muito útil e conveniente sim. E ninguém quer o seu desaparecimento! Mas tem que ser usado com moderação. E tudo tem que ser revisado. E repensado. E pensado novamente. E novamente. É aquela velha frase copiada e colada sempre: quando a gente muda, o mundo muda com a gente.

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3 Respostas to “O Control C, Control V na justiça”

  1. Annie Adelinne Says:

    Ótima! hahaha

    Já usei muito Ctrl+C/Ctrl+V. Algumas vezes era uma mão na roda. Mas sempre fiz questão de ler os processos pra tentar não deixar passar nada. Até porque, muitas vezes o processo já começava com a minha desvantagem. Sabe, né?

  2. Rafael Rivas Says:

    É verdade. O novo CPC vem a corroborar com isso. Mais celeridade e “copy” & “paste”.

    Aqui no Ministério Público (Executivo) também tem bastante “Ctrl C, Ctrl V”. E igualmente, tantos erros.

    Já trabalhei no Judiciário. Vi cada coisa que dá medo. Alguns “copia e cola” dão um pouco errado, como, por exemplo: “14 (vinte) parcelas”.

    Teve uma Advogada que começou narrando um fato e, acho eu, porque esqueceu de apagar o conteúdo do modelo, terminou com outro relato, nada a ver com o início. Começava com uma senhora que tinha caído no ônibus, pleiteando danos morais, e terminava com um motoqueiro, também pedindo danos morais. Coisa de loco!

  3. Daniel Siqueira Santos Says:

    Sei bem o que você está falando, já trabalhei em ambos os lados e é a mais cruel realidade.
    O problema é que de um lado pode ter alguém esperando por justiça, e muitas vezes o julgador sequer lê o teor da petição.
    Advogados pesquisam, estudam, e se esmeram em elaborar uma petição justa e fundamentada, mas as respostas são sempre as mesmas
    Isso é desestimulante e perigoso, mas os juízes não estão nem aí.

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