Estamos perdendo nossos professores

Nos últimos dois dias de aula senti profundamente o comentário de dois professores e quero compartilhar cada um.

O primeiro, professor de Empresarial, é um advogado renomado, aos 32 anos de idade (corpão de atleta) já foi professor nos EUA, na Federal, grandes cursinhos e tem um escritório excelente que leva seu nome. Era para ele ser um nojo, mas é incrivelmente legal: prepara todas as aulas fofamente, não falta, não atrasa, é sempre bem-humorado, transforma S/A na matéria mais interessante do planeta e acolhe currículos de alunos. O problema é que, mesmo assim, o ibope das aulas tem sido baixo. Ele se recusa a fazer chamada e a turma, equivocadamente, ao meu ver, consegue gostar mais do bar que da sala (quando é tão mais divertida). Não custaria nada esperar a aula acabar pra tomar uma cervejinha, para acompanhar o segundo tempo do jogo, para paquerar os garotos da engenharia… Não custaria nada, gente… Por isso, aos poucos, o bom professor vai percebendo que não tem retorno e cogita o “mais o que fazer com o tempo”. Mesmo quando as lições dele vão além da matéria. Quando poucas frases conseguem mudar os rumos de tanta gente… Mesmo assim, ele não tem o ibope necessário. E olha que a gente paga pelas aulas.Triste…

O segundo professor, dá aula de Hermenêutica, é também professor de Empresarial, mas não para mim (faço 8 disciplinas, turmas diferentes). Hoje ele terminou a matéria e anunciou: não dará mais aula de Hermenêutica. O motivo? Leu uma reportagem sobre o índice reduzido de felicidade nas últimas décadas e concluiu “Trabalhar demais pode diminuir a felicidade”. Calma, não leve ao pé da letra. O professor tem duas filhas. E pouco tempo com elas. Nada contra trabalhar. Nada contra ralar demais. Mas ele dá aula de manhã e de noite em faculdades e cursinho, advoga de tarde, faz peças no domingo, estuda ou trabalha no sábado. Aos 30 anos, sente que não tem fôlego para longas viagens, não tem pique para aproveitar a vida a dois, e, se a filhinha pula pra cama do casal de madrugada, não tem paciência para curtir o momento e manda a menina de volta pro quarto.

Hoje ele, emocionado, informou que tinha decidido viver mais em família, ter mais tempo pras filhas, ser mais feliz. E, num soluço que todo mundo sentiu, disse “Hoje, quando vocês descerem a rua, observem um cartaz grande no cruzamento. É um cartaz da campanha de vacinação infantil. Lá está a menina mais linda do mundo: minha filha.”

Daí que o soluço não seja só dos professores que, por motivos variados se despedem dos alunos que ficam até o final da aula, mas também nosso, destes alunos que gostam de aulas, por perdemos professores que têm sangue correndo nas veias e vontade de ainda ajudar o mundo com seus conhecimentos. O soluço é também nosso.

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9 Respostas to “Estamos perdendo nossos professores”

  1. Érika Bahia Says:

    Didi, tudo bem? Compartilho do seu pesar e o que mais me entristece é que este tempo de sala-de-aula não voltará e no futuro, quando formos profissionais e não mais alunos sentiremos falta da tão sonhada sala de faculdade, do ambiente e dos ensinamentos desperdiçados e que na vida profissional se farão necessários e muitas vezes imprescindíveis. Beijos e mais uma vez parabéns pelo belo texto. Fui!!!

  2. Andressa Says:

    Di,
    Parabéns pelo texto.
    Realmente é mto triste ver pessoas q realmente gostam do q fazem se despedindo…
    Mas enfim… Concordo um pouco com o seu professor q vai abandonar as aulas para participar mais da vida das filhas…
    É duro oq exigem da gente hj…
    Para quase nada temos tempo, pq temos o trabalho, a faculdade, o inglês, o espanhol, a academia, as baladas…
    E td demanda tempo…
    E qdo vemos não temos mais tempo para os amigos, para dar uma volta a toa, para um bom livro, para um café tranquilo….
    Triste.
    Mas é a vida…
    Bjo!

  3. Laís - Ribeirão Preto SP Says:

    Olá Didi,
    Tb sou aluna do curso de direito, estou na 9º etapa, último ano e acompanho sempre o blog mas nunca comentei antes. No entanto, hj não me contive (rs), entendo muito bem o que vc sente e onde estudo existe o mesmo descaso da parte de certos alunos…é triste…ainda mais pq esse descaso dos alunos acaba refletindo no desempenho de nossos professores e na motivação deles para as aulas…
    Parabéns pelo texto e ótimo fds pra vc!!!
    Bjos!!!

  4. renan Says:

    Olá,
    Meu nome é Renan,tambem sou estudante de Direito, comecei este ano, estou terminando o 1° período.
    Super-coicidência esta, em minha sala tem professores que não fazem chamada e o resultado é o mesmo que na sua sala : o boteco.
    Para maior coicidência meu professor de Ciência politica saiu tambem e pelos mesmos motivos que o seu professor (só que ele tem quase 70 anos, já viajou para mais de 30 paizes, ou seja, “tá com o burro na sombra”).
    Ao meu ver hoje as pessoas não estão querendo pagar um preço pelos seus objetivos. As frequências são minimas, inclusive nas conferências e palestras que a coordenadoria proporciona, é incrivel o descaso, na minha opinião a pessoa que quer atuar no Direito TEM QUE TER UMA CAUSA A DEFENDER : JUSTIÇA, PELOS OUTROS.
    Aqueles que não tem uma causa mas sim a “causa do dinheiro, querem ser juizes e sair por aí ganhando mais de 20 mil”, estes não vão longe, no curso até podem ir, pois pagam e como a faculdade precisa deste dinheiro acaba empurrando, longe que eu digo é na excelência da vida que se perde diante dessa sociedade capitalista.

  5. Fauzy Says:

    Oi
    Me chamo fauzy, estou no 7 periodo, e tb faço faculdade particular e percebo que na maioria das faculdades particulares é assim, tem alunos que nao dao muito valor para aulas, e ja tive varias aulas como uma de filosofia do direito certa vez nas quais uma turma de mais de 50 alunos , assistiam apenas 15 alunos, e isso acaba por desestimular os professores tb , acredito que deve ser muito gratificante para um professor dar uma aula pra quem está interessado e ter um feedback,e isso estimulara a todos a estudar mais.
    Parabens pelo seu texto

  6. Jill Says:

    É querida, nossa dura realidade… Só com o tempo e com a maturidade percebemos o quão importante termos pessoas em nossas vidas que “fazem toda a diferença”.
    Professores são uma licão de vida, de amor e de profissão e se tivéssemos um pouquinho só de humildade, abriríamos nossos corações e mentes para com eles aprender!
    Excelente texto… Parabéns mais uma vez…
    Bjão

  7. Estamos perdendo nossos professores |  Laboratório Jurídico Says:

    […] Site: https://direitoelegal.wordpress.com/2009/06/18/estamos-perdendo-nossos-professores/ Fonte: https://direitoelegal.wordpress.com/feed/ VN:F [1.6.4_902]Salvando…Nota: 0.0/10 (0 votes) Adicionar aos favoritos […]

  8. larissa mattos Says:

    oi meu nome é LARISSA tenho quatorze anos de idade e pretendo quando crescer fazer faculdade de direito e pretendo ser advogada.E lendo o seu texto gostei muito mais dessa ideia,eu peguei inprestado o seu texto e mostrei para minha professora e ela se emocionou muito com essa estoria.E todos os da minha escola adoraram o texto tchau [RED]BOA SORTE

  9. Ótimos links para começar a semana « Coisas que Gosto Says:

    […] Descobri: Direito é Legal. Quando leio o blog da Didi, acho as questões jurídicas fáceis de compreender e entendo quando os olhos do meu marido brilham quando ele fala sobre o trabalho dele. Leia o post Estamos perdendo nossos professores. […]

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